As coisas não estão correndo bem na Mercedes, especialmente com os modelos elétricos. A luxuosa dupla EQS e EQE, em particular, não convenceu os clientes da marca premium alemã na Europa e muito menos na China, onde tem sido ultrapassada por quase todos os fabricantes domésticos. Algumas das razões estão na limitação da plataforma, na tecnologia de carregamento modesta e na falta de poder de sedução no design.Não é de estranhar, por isso, que a pressão em Stuttgart seja muito alta: o conselho de supervisão, sob o comando do seu novo presidente, Martin Brudermüller, reformulou recentemente o conselho de administração e as mudanças poderão não durar muito se não houver uma reviravolta nos números de vendas, lucros e estratégia elétrica, já a partir deste ano.Isso quer dizer que o CLA – com estreia na Europa e no Brasil no segundo semestre – é o modelo que nasce com mais pressão nas últimas décadas na Mercedes-Benz. E, mesmo equipado com tecnologias e uma arquitetura totalmente novas, o desafio preocupa: sabendo-se que o seu preço inicial vai se situar em torno dos 55.000 euros (cerca de R$ 365.000), será possível desafiar o establishment nos Estados Unidos, na China e Europa, onde um Tesla Model 3 pode ser comprado a partir dos 40.000 euros (R$ 266.000)?É certo que o carro de Elon Musk já tem alguns anos de estrada, mas nem a sua performance nem a autonomia deverão ser superadas pelas entregas do novo sedã alemão.O novo CLA e os outros três modelos que serão feitos sobre a nova plataforma MMA (Mercedes Modular Architecture) – CLA Shooting Breake, GLA e GLB – foram projetados para serem unicamente elétricos. Mas, quando as vendas de carros elétricos estagnaram no Ocidente (e a torneira dos incentivos fechou na Alemanha), o projeto foi revisto e a decisão foi a de produzir também versões híbridas a gasolina simplesmente porque ter um novo modelo com esta importância e apenas elétrico seria arriscado.Por esta razão, a Mercedes adotou uma estratégia que, até certo ponto, é próxima da seguida pela BMW, dando ao cliente a possibilidade de decidir com que tipo de energia quer que o seu carro ande. Mas, ao contrário dos principais concorrentes (leia-se Audi e BMW), os futuros modelos compactos da Mercedes deixarão de ter motores diesel ou híbridos plug-in, a começar por este CLA.Ele será servido por tração traseira ou integral, e deverá concorrer com as futuras gerações elétricas do Audi A4 e do BMW i3. Grande parte da tecnologia foi desenvolvida com o concept--car Vision EQXX, e a versão de produção em série começa com o carro de tração traseira com 272 cv, enquanto as versões mais potentes terão um segundo motor elétrico dianteiro de 109 cv.O módulo elétrico frontal atua dependendo do modo de condução, quando é requerida mais potência ou quando há falta de tração traseira. Caso contrário, é desligado numa fração de segundo, deixando o eixo dianteiro em hibernação.Na Alemanha, pode ser uma desvantagem considerável o fato de a velocidade máxima ser de 210 km/h, bem menos do que os 250 km/h de máxima do Tesla Model 3.A Mercedes demonstra especial orgulho por ter conseguido usar um inversor de carboneto de silício particularmente potente neste segmento de mercado. A nova arquitetura tecnológica é alimentada por um sistema elétrico de 800 volts, que permite potências de carregamento até 320 kW.Atualmente, nem o topo de gama Mercedes EQS vai muito além dos 200 kW, e na Tesla o pico de potência de carga na dupla Model 3/Model Y situa-se nos 250 kW. Isso significa que o novo CLA deverá ser capaz de reabastecer até 300 km em dez minutos, num carregador potente.O câmbio tem duas marchas, como na dupla Porsche Taycan/Audi e-tron GT, permitindo autonomia de 750 km com a bateria maior, com 85 kWh de capacidade. As versões de entrada usarão uma menor, de 58 kWh.O CLA com motor a combustão não estará disponível antes do início de 2026. Visualmente, não serão muito diferentes. E, em vez de um porta-malas frontal, haverá um motor a gasolina 1.5 turbo de quatro cilindros desenvolvido pela Mercedes em parceria com a chinesa Geely.O motor estará inicialmente disponível em três níveis de potência: 136 cv, 163 cv e 190 cv. Graças ao sistema elétrico de 48 volts, o rendimento é expandido por um motor elétrico, que contribui com mais 27 cv.CEO como motorista Não é de estranhar que o CEO da Mercedes, Ola Källenius, estivesse ansioso para dar a alguns jornalistas a possibilidade de fazer um breve test-drive no novo CLA. No altamente vigiado centro de desenvolvimento de Immendingen, nos arredores de Stuttgart, o protótipo dirigido por nós ainda estava densamente camuflado, com uma película vermelha no exterior e painéis recobrindo o interior (ao contrário do carro já pronto, nas fotos de divulgação).O desenho final e as proporções (comprimento de 4,75 metros, 6 cm a mais do que o anterior) são fundamentalmente idênticos aos do concept-car do salão de Munique de 2023, e isto também se aplica aos objetivos técnicos então revelados. “Queremos manter ou superar tudo o que prometemos no final de 2023”, diz com convicção Ola Källenius, sublinhando que há fatores que serão decisivos para levar os clientes a migrar para a eletromobilidade.Os engenheiros que trabalharam no sistema elétrico e testaram as baterias até a exaustão garantem que os donos do CLA poderão fazer uma viagem de 1.270 km com apenas duas paradas de 10 minutos cada uma (considerando a bateria maior). A ver.O líder da Mercedes sabe bem que o interior do novo CLA é de imensa importância. Quando levanta as coberturas escuras usadas para garantir o secretismo que ainda rodeava o CLA, no dia de nosso test-drive, e nos deixou ter um vislumbre do painel e controles, a expressão de satisfação no seu rosto foi reveladora de que os engenheiros lhe deram o que lhes foi pedido.Tal como no concept-car Mercedes-Benz Vision EQXX que lhe deu origem (e exceto nas versões menos equipadas), a versão final do carro também irá dispor de uma ampla tela que se estende por toda a largura do painel, de pilar a pilar. O modelo deverá trazer sistema de navegação desenvolvido com a Google, o novo sistema operacional MB.OS e diversas aplicações de IA do ChatGPT.Os bancos são confortáveis e há espaço mais do que suficiente para cinco adultos. Como a Mercedes fez questão de ter um coeficiente aerodinâmico próximo do antecessor (Cx 0,23), o novo CLA é apenas marginalmente mais alto. O teto panorâmico de série ajuda a aumentar a altura livre aos ocupantes.Com a temperatura negativa nos Alpes austríacos onde ocorreu esta experiência de copiloto e as estradas com gelo e neve, as impressões dinâmicas seriam muito limitadas, ainda mais sem o volante nas mãos. Seja como for, o novo CLA parece ser mais confortável do que um Polestar 2 e menos esportivo do que um BMW i4.Veredicto Quatro Rodas - Pelo visto, a Mercedes fez um bom carro para brigar entre os elétricos mais vendidos.Ficha Técnica - Mercedes-Benz CLA 250+Preço: 55.000 euros (R$ 365.000) estimadoMotores: elétrico, traseiro, síncrono, ímãs permanentes, 272 cv de potência, 34,2 kgfm de torqueBateria: íons de lítio, recarga máxima 11 kW (AC), superior a 320 kW (DC)Câmbio: automático, 2 marchas, tração traseiraDireção: elétrica, diâm. giro, 11,2 mDimensões: comprimento, 472,3 cm; largura, 185,5 cm; altura, 157,4 cm; entre-eixos, 279 cm; peso, 2.055 kg; porta-malas, 405 lDesempenho*: 0 a 100 km/h, 8,7 s; veloc. máx., 210 km/h; recarga total AC, 9 h; DC, 22 min; autonomia: de 285 a 325 km (WLTP)*Dados de fábrica