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Romi Isetta: 70 anos do primeiro carro produzido em série no Brasil

O primeiro automóvel nacional produzido em série faz 70 anos e ainda encanta os defensores da mobilidade urbana racional

Por Felipe Bitu Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 set 2026, 11h00 | Atualizado em 22 set 2026, 13h11
Carro clássico verde-água com faixa branca central estacionado em rua de paralelepípedos, com prédios antigos coloridos ao fundo, incluindo um com letreiro OPERA
A porta dianteira foi inspirada em aviões cargueiros militares (Leo Sposito/Quatro Rodas)
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Instalada em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, a Romi é um dos melhores exemplos de indústria nacional que deu certo. Prestes a completar 100 anos, a empresa criada pelo industrial paulista Américo Emílio Romi surgiu a partir de uma humilde oficina e há 70 anos apresentou o primeiro automóvel brasileiro produzido em série: a Romi-Isetta.

Idealizada na Itália, a Isetta foi originalmente produzida pela Iso Autoveicoli S.p.A. e, posteriormente, licenciada para diversos fabricantes ao redor do mundo. A ideia de produzi-la no Brasil foi de Carlos Chiti, enteado e sócio de Emílio Romi. Chiti considerou que aquele automóvel urbano, acessível e adequado à dura realidade da reconstrução pós-guerra, na Europa, também seria plenamente adequado à realidade de um país predominantemente agrário, com sérias pretensões industriais e urbanísticas.

Dois carros antigos, um fusca azul-turquesa e um Isetta verde-água, estacionados em rua de paralelepípedos. Um homem de camisa clara e gravata escura aponta para o fusca. Ao fundo, uma parede amarela com letreiro e uma planta em vaso preto
A Romi-Isetta transmitia a ilusão de possuir apenas três rodas, em razão da bitola traseira estreita ()
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Filho de imigrantes italianos, Emílio residia na Itália quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu. Ferido em combate, voltou ao Brasil em 1923 após se casar com a viúva Olímpia Gelli Chiti, mãe de Carlos. Acumulou experiência como mecânico na revenda paulistana Alfa Romeo e em uma concessionária Chevrolet, em Americana.

Mural de rua com dois carros antigos turquesa e figuras humanas em estilo retrô. À esquerda, uma mulher de vestido verde e cinco homens posam ao lado de um carro. À direita, um homem de camisa azul e gravata aponta para um segundo carro. Ao fundo, a fachada de um prédio com a inscrição GARAGE STA BARBARA DE EMILIO ROM e um carro vermelho antigo
Quebra-ventos laterais otimizavam o fluxo de ar no habitáculo. A capota retrátil de lona reduzia o calor em dias mais quentes e funcionava como saída de emergência, em caso de colisão ()
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Ao lado de Chiti, Emílio funda a oficina Garage Santa Bárbara, em 1929. Produziram máquinas agrícolas, tornos e o primeiro trator nacional, o Toro. Importaram duas Isettas, desmontaram e chegaram à conclusão de que era possível produzir no Brasil: em 1955, embarcam para a Europa e retornam com a concessão da Iso.

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O acesso ao habitáculo era feito pela única porta, à frente do veículo: um único banco comportava dois adultos e uma criança. Refrigerado a ar, o motor monocilíndrico de dois tempos, 198 cc e 9,5 cv estava acoplado a uma transmissão manual de quatro marchas: prometia alcançar 85 km/h e rodar 26 km com 1 litro de gasolina.

Pintura de um homem de camisa azul e calça cinza apontando para um carro verde-água com teto marrom, estacionado em uma rua de paralelepípedos. Ao fundo, uma mulher de vestido verde e um grupo de homens observam. A fachada de um prédio amarelo com a inscrição GARAGE STA BARBARA DE EMILIO ROM aparece atrás, com um carro antigo cinza à esquerda e um bordô à direita
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Menos de um ano depois, em 30 de junho de 1956, a Romi produziu a primeira unidade da Isetta brasileira: acompanhado de Olímpia, Emílio conduziu o microcarro sob aplausos dos operários. O lançamento oficial ocorreria apenas em setembro: no dia 5 uma frota de Romi-Isetta desfilou sob o comando de Carlos Chiti no então sofisticado Centro de São Paulo.

A demanda era reforçada por uma maciça campanha publicitária em revistas e jornais. Em 1957, a carroceria sofreu pequenas alterações e a cilindrada subiu para 236 cc. Uma caravana com 33 exemplares foi de São Paulo ao Rio de Janeiro em janeiro de 1958, sendo recebida por autoridades e personalidades da época.

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Carro antigo verde-água com a porta frontal aberta, revelando o interior com banco marrom e volante preto. O veículo está estacionado em uma rua de paralelepípedos, com um prédio ao fundo
A coluna de direção basculava junto com a porta. Alavanca do câmbio de quatro marchas exigia destreza com a mão esquerda ()

O primeiro automóvel nacional era uma das estrelas do primeiro canal de televisão no país, a TV Tupi, onde a Romi-Isetta contracenava com o casal Eva Wilma e John Herbert na série brasileira Alô, Doçura!.

Vários empregos indiretos foram gerados na Saturnia (baterias), Sueden (molas), Tecnogeral (chassi/carroceria), Amortex (amortecedores), Same (material elétrico), Orion (peças de borracha), Blindex (para-brisa), Djalma (limpadores de para-brisa), Probel e Plexon (assentos e estofamentos) e Pirelli (pneus).

Interior de um carro antigo verde-água, com volante preto e cromado, painel minimalista com velocímetro e porta-luvas embutido. O banco é marrom claro com estampa xadrez, e o assoalho tem tapete preto emborrachado.
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Em 1959, surge o modelo 300, com melhorias estéticas e motor BMW de quatro tempos com 298 cc; os 3,5 cv a mais representavam um aumento de potência de 40%. O interior redesenhado trouxe um novo volante com três raios. A nacionalização da Romi-Isetta saltava de 70 para 78%.

Em 15 de março do mesmo ano, Emílio Romi faleceu em razão de um derrame cerebral. A consagração da Romi-Isetta ocorreu em 2 de fevereiro de 1960, quando Juscelino Kubitschek recebeu a Caravana da Integração Nacional em Brasília: o presidente desfilou de capota aberta.

Motor exposto de um carro antigo verde-água, com componentes metálicos prateados e tubulações. A roda traseira é visível na parte inferior esquerda
O pequeno motor Iso vinha importado da Itália. Minimalista, o painel era formado por velocímetro, luz do dínamo e indicadores de direção e do farol alto. ()

A Romi chegou a participar do I Salão do Automóvel, em 1960, mas seu destino já estava selado pelas normas do GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), que exigiam capacidade mínima para quatro passageiros e ao menos duas portas. A falta de incentivos fiscais e subsídios de importação acabou por encerrar sua produção, em 1961.

 

Carlos Chiti e Emílio Romi não foram apenas pioneiros – foram visionários que vislumbraram a transformação de um país agrícola em uma potência industrial regional. A Romi-Isetta foi um dos capítulos mais importantes na história de uma empresa genuinamente nacional, que ainda hoje traz muita prosperidade à comunidade barbarense e ao Brasil.

Painel de um carro antigo com volante preto, velocímetro analógico marcando 0 km/h, e um molho de chaves na ignição. O painel é cinza texturizado com o nome Isetta em relevo e detalhes verticais
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Ficha Técnica

Romi-Isetta 1956
Motor: dois tempos, transversal, 1 cilindro, 198 cm3, alimentado por um carburador simples
Potência: 9,5 cv a 4.500 rpm
Torque: 1,4 kgfm a 4.200 rpm
Câmbio: manual de 4 m., tração traseira
Carroceria: fechada, 1 porta, 2 lugares
Dimensões: compr., 228 cm; larg., 138 cm; alt., 134 cm; entre-eixos, 150 cm; 350 kg, pneus 4,50 x 10
Preço: com os incentivos previstos: Cr$ 49.000 – R$ 36.913 (IGP-DI FGV).
Sem os incentivos: Cr$ 99.820 – R$ 69.973 (IGP-DI FGV)

Os bastidores da chegada da Fiat ao Brasil, há 50 anos

Agradecimento especial Murais de @CAMILORODRIGUESARTES

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